Resumo: Na última década assistiu-se à (re)emergência mundial do uso de substâncias psicadélicas (SP) em diversos contextos e com usos diversos, residindo aqui o seu caráter distintivo, que tem merecido atenção crescente tanto de especialistas como do público. Por este motivo, tem sido realizado um investimento notável em ensaios clínicos promissores para diversas condições de saúde mental, redirecionando as SP do armário “contracultural” em direção ao seu reconhecimento parcial e desestigmatização cultural. Esta mudança, porém, não é linear, abrangendo nuances que devem ser abordadas a partir de níveis de análise distintos – social, cultural, político, jurídico, terapêutico – visto que a investigação não clínica é, na sua maioria, incipiente ou inexistente. Este projeto pretende contribuir para este debate através do estudo dos usos rituais de SP para fins espirituais, adotando uma perspetiva ainda inexplorada, também em Portugal. O seu foco incide nas implicações socioculturais e terapêuticas de tais práticas do ponto de vista tanto dos utilizadores como dos facilitadores, dentro da arena psicadélica e fora de ambientes clínicos. Entende-se aqui a espiritualidade numa perspetiva mais ampla do que as religiões tradicionais, que permite considerar práticas informais e não institucionais, definidas de forma fluida e com uma componente fortemente individual, ainda que a sua dimensão coletiva seja inevitavelmente abordada, através do estudo de contextos específicos de sociabilidade organizados em torno de práticas partilhadas que designamos de “contextos rituais emergentes”. Nesse sentido, uma componente comunitária pode estar presente e explicar o envolvimento dos participantes com as práticas e, eventualmente, os resultados terapêuticos percebidos. Embora o foco principal deste projeto seja estudar a intersecção entre as práticas espirituais e o uso ritual de SP, pretendemos também examinar práticas que envolvem o mesmo uso ritual, mas sem qualquer componente espiritual explícita, ampliando o próprio conceito de espiritualidade. Nesse sentido, podemos considerar dois tipos de contextos, grupos e práticas que se enquadram na definição acima: a) práticas, grupos e contextos com orientação espiritual explícita e uso de SP (e.g. cerimónias e retiros com SP de tradições indígenas); b) práticas, grupos e contextos que utilizam PS sem foco espiritual explícito (e.g., encontros ou eventos semiprivados). Situamos as implicações de tais práticas a três níveis, traduzidos através dos seguintes eixos: 1) Eixo Sociocultural – que tipo de grupos/comunidades emergem em torno dos usos rituais de SP em determinados contextos, e quais são as forças motivadoras por trás da sua adesão e envolvimento? 2) Eixo Terapêutico – como são percebidos e vivenciados quaisquer efeitos/resultados terapêuticos, transformadores ou espirituais, por aqueles que oferecem e procuram tais práticas? 3) Eixo Ético-jurídico – que desafios ético-jurídicos são enfrentados tanto pelos participantes/organizadores quanto pelas instituições envolvidas com tais práticas? Que dilemas jurídicos, respostas de intervenção pública e discursos desencadeiam? Para responder aos desafios deste estudo, foi desenhada uma estratégia de investigação qualitativa, baseada em observação multisituada recorrendo a um método de amostragem de “bola de neve”, permitindo a identificação tanto de participantes como de facilitadores. Considerando que tais práticas ocorrem longe do olhar do público e são, na sua maioria, inacessíveis a pessoas de fora, a recolha preliminar de informação, online e através de informantes privilegiados, será de importância fundamental para filtrar estudos de caso que se enquadrem nas duas categorias mencionadas, permitindo a sua observação. A relevância deste projeto reside, em primeiro lugar, no facto de representar um tema socialmente pertinente e controverso, que gera discursos polarizados por parte de diferentes intervenientes sobre as consequências do uso de SP a níveis distintos, sejam éticos, legais, clínicos ou sociais. Em segundo lugar, independentemente do seu ressurgimento e do seu novo estatuto de objeto de investigação, as SP representam um território relativamente desconhecido para o público em geral e para os poderes estabelecidos, ainda parciais em relação a quaisquer usos normativamente alternativos. Em terceiro lugar, independentemente da proliferação de estudos nas áreas clínicas, este é ainda um terreno científico sociologicamente inexplorado, cuja investigação surge normalmente diluída em estudos gerais sobre o uso e dependência de drogas, sem considerar implicações mais complexas (e.g., sociais, culturais, terapêuticas, éticas). Finalmente, o âmbito deste projeto – combinando práticas espirituais com SP – estabelece um tema de investigação original e pioneiro, que irá gerar dados novos e inovadores, contribuindo assim originalmente para um conhecimento ainda inexistente na área da sociologia.
Área científica: Ciências Sociais
Beneficiadores finais / População-alvo: Sociedade Civil
Cronograma: janeiro 2025-janeiro 2027
Equipa: José Alberto Simões (coordenador científico); Ana Sofia Machado Ferreira; Eugenia Roussou; Ricardo Campos; Tiago Pinto