Dulce Magalhães: Marcas de um percurso

A Dulce Magalhães deixou-nos no passado dia 22 de outubro de 2016. Não pretendemos aqui fazer um exercício hagiográfico, algo muito pouco adequado, aliás, à personalidade empática e pragmática da Dulce. Ao invés, focar-nos-emos em alguns pontos fulcrais do seu percurso académico e pedagógico.

Desde o início focada na génese, reprodução e mudança das desigualdades de classe, a sua tese de doutoramento, Dimensão Simbólica de uma Prática Social: Consumo do Vinho em Quotidianos Portuenses, defendida em 2005 sob orientação do Professor António Teixeira Fernandes, consolida uma trajetória de análise da sociedade portuguesa, da sua estrutura e dinâmica sociais, vindo a ser publicada pelas Edições Afrontamento, em 2010, com o título Vinhos: Arte e Manhas em Consumos Sociais: a apreensão de uma prática sociocultural em contexto de mudança. A releitura desse trabalho torna evidente o exímio domínio dos quadros de referência teóricas sobre a estrutura social portuguesa, mas também a sua observação através de uma plataforma estratégica de pesquisa consubstanciada pelos lugares de consumo de vinho, desde os clubes mais distintivos, até às tabernas populares.

Assim, fica clara a sua inscrição na Teoria da Prática de Pierre Bourdieu, ao analisar, nesses contextos portuenses, a relação entre posições no espaço social, disposições e práticas, recorrendo à mediação do conceito de habitus mas também à centralidade dos quadros de interação onde as apropriações sociais (consumos) se estabeleciam, numa teia de sociabilidades e performances onde amiúde se joga o jogo da distinção social. Como ela própria escreveu:

Como se sabe, qualquer prática sociocultural é atravessada por diferentes formas de apropriação. Fica claro, então, o pressuposto de que essas diferentes formas de apropriação poderão resultar de diferenciações de classe, enquanto espaços diferenciados de socialização. A socialização, processo dinâmico de aprendizagem social, é equacionada tendo em linha de conta a inculcação/incorporação de saberes e fazeres. O agente social é, assim, confrontado com diferenciações sociais transversais a todas as dimensões em que se move na estrutura social e que emergem de condições sociais de existência que simultaneamente associam uns e distanciam outros, pelo que se percebe aqui a pertinência da existência de lugares estruturais de classe no espaço social. Cf. Dulce Magalhães (2014), “The habitus and the New: from social (re)learning to practices”, Revista Latina de Sociología, nº 2: 23-41. http://revistalatinadesociologia.com ISSN 2253-6469

Mais recentemente, Dulce Magalhães trabalhou no quadro de um projeto coordenado por Rui Gomes, sobre as recentes vagas de emigração portuguesa qualificada, comummente designada por processo de “fuga de cérebros” e onde teve um papel de relevo, tanto na localização de classe dos sujeitos entrevistados, como nas subtis e plurais formais mediante as quais esses percursos se traduzem em biografias concretas plasmadas em retratos sociológicos (seguindo a inspiração de Bernard Lahire) conducentes às decisões de emigrar.

Como docente, a Dulce granjeava uma enorme simpatia por parte dos estudantes. Era atenta, disponível e solidária e disso tivemos inúmeros e comovidos testemunhos. Nas suas aulas, em que dominavam as temáticas das classes sociais e das mobilidades, proliferavam os incentivos à aplicação dos referenciais teóricos à contemporaneidade dos quotidianos. De igual modo, a educação e os processos de escolarização eram por ela convocados de molde a explicar as trajetórias e recomposições sociais pós 25 de Abril.

A sua preocupação em aperfeiçoar dispositivos de análise com potencial pedagógico, levou-a a atualizar frequentemente, com base nos dados do INE relativos à Classificação Nacional de Profissões, a célebre grelha ACM, proveniente das iniciais de Almeida (João Ferreira de), Costa (António Firmino da) e Machado (Fernando Luís), instrumento já clássico da análise de classes da sociedade portuguesa.

In Memoriam